A Editora da Universidade Federal de Viçosa (UFV) publicou em 13 de agosto de 2026 a Política de Uso de Inteligência Artificial Generativa da Editora UFV, que veta a inteligência artificial como autora, coautora ou avaliadora de obras. O documento trata a ferramenta apenas como instrumento auxiliar e deixa a responsabilidade ética, científica, jurídica e autoral pelo conteúdo inteiramente com as pessoas envolvidas no livro.
Para quem pretende publicar pela editora, a mudança tem efeito imediato em três pontos. Todo uso de inteligência artificial generativa precisa ser declarado em formulário específico, com a ferramenta, a finalidade e a etapa em que foi empregada. A obra cuja concepção intelectual tenha sido substituída, no todo ou na maior parte, por conteúdo gerado por máquina não é aceita. E, constatado o uso fora das diretrizes, o processo de avaliação ou de publicação é cancelado, em qualquer fase em que estiver.
O texto também proíbe a inclusão de referências que o autor não consultou diretamente, e é aí que a política toca no risco mais conhecido da inteligência artificial na pesquisa científica. As alucinações de IA são resultados incorretos ou enganosos gerados pelos modelos, segundo a definição do Google Cloud, e na escrita acadêmica elas podem aparecer como citações com autor, título e ano que parecem verdadeiras, mas não correspondem a nenhum trabalho publicado.
Quem acompanha de perto como ChatGPT, Gemini e outras ferramentas escolhem as fontes que citam enxerga na regra da UFV um cuidado que vale também fora da universidade. Lucas Ferraz é um deles: “A ferramenta acelera a busca, mas quem assina responde pelo que está escrito. Toda referência sugerida por IA precisa ser aberta e lida antes de entrar no texto, porque a alucinação de IA não avisa que está acontecendo”, afirma. A Lucas Ferraz SEO, em que ele conduz projetos de SEO e de Generative Engine Optimization (GEO), voltada às respostas que os assistentes de IA montam, adota o mesmo critério nos conteúdos que produz: a IA pode ajudar no rascunho, mas nenhum texto vai ao ar sem leitura e aprovação de alguém da equipe.

Como declarar uso de IA na submissão?
Para declarar o uso de IA na submissão, o autor usa o formulário específico da editora e, quando for o caso, também um campo próprio dentro da obra. A política lista os usos auxiliares permitidos: revisão ortográfica, tradução, normalização, estruturação de estratégias de busca, análise assistida de dados e preparação de elementos gráficos. Em todos eles, a condição é a mesma: os autores precisam verificar integralmente o resultado e justificar e documentar o uso.
O documento também define o que considera uso indevido: aquele em que a máquina substitui de forma substancial a elaboração intelectual, a argumentação, a análise crítica, a metodologia ou a contribuição original dos autores. Na prática, um capítulo pode ter a revisão de português feita com ajuda de uma ferramenta, desde que declarada, mas não pode ter o argumento central escrito por ela. Pela regra, o que conta é quem pensou o texto.
Na análise de dados, criar, alterar ou fabricar informações é proibido. Dados, cálculos, traduções, citações e referências sugeridos pela ferramenta devem ser conferidos com rigor por quem assina a obra. Para as capas, a regra é ainda mais restrita: a IA pode complementar elementos gráficos, mas a arte original tem de ser de autoria humana.
Pareceristas e conselho também têm limites
As restrições não valem apenas para quem escreve. Membros do Conselho Editorial e pareceristas externos estão proibidos de inserir manuscritos inéditos ou dados não publicados em plataformas públicas de IA, como ChatGPT, Claude e Gemini, para proteger o sigilo editorial e os direitos autorais. O parecerista pode usar a ferramenta apenas para revisar a ortografia do próprio parecer, sem colar nela trechos do manuscrito.
A triagem inicial pode contar com ferramentas analíticas, mas a decisão de aceitar ou recusar uma obra nunca será automatizada e cabe exclusivamente ao Conselho Editorial. Quando houver suspeita de uso indevido ou não declarado, a editora notifica os responsáveis e o conselho avalia a natureza, a extensão, a intenção e os efeitos da conduta.
Revisão e produção continuam humanas
A equipe técnica da editora segue a mesma lógica. Na revisão de texto, coerência, coesão, estrutura e adequação ao público continuam sob responsabilidade de revisores humanos, e a ferramenta não é usada de forma automática nem para a verificação gramatical. O revisor pode recorrer a ela para reescrever um trecho confuso, mas decide, trecho a trecho, se a sugestão entra no livro. Na produção, ninguém da equipe deve alimentar plataformas públicas com o conteúdo integral de uma obra em andamento. No caso do Conselho Editorial, o uso da ferramenta como apoio fica restrito ao ambiente institucional da universidade, sem compartilhamento externo nem uso dos dados para treinar modelos abertos.
Padrão internacional de ética em publicação
A linha adotada em Viçosa acompanha a posição do Committee on Publication Ethics (COPE), entidade internacional de ética em publicação científica, revista em 13 de fevereiro de 2023: ferramentas de IA não podem constar como autoras porque não conseguem responder pelo trabalho submetido, declarar conflitos de interesse ou administrar direitos autorais. Regras desse tipo vêm se espalhando por instituições públicas, como mostrou a portaria do Ministério da Justiça que regulamentou o uso de IA em investigações criminais em 2025, e pela preocupação com conteúdo falso gerado por máquina, alvo do centro criado pelo Tribunal Superior Eleitoral com a Polícia Federal e a Advocacia-Geral da União contra a desinformação.
O próprio documento da editora prevê revisões periódicas pelo Conselho Editorial, para acompanhar a evolução tecnológica, normativa e ética do tema. Até a próxima versão, vale a de agosto, que já se aplica a autores, organizadores, revisores, tradutores, diagramadores, ilustradores e demais profissionais do fluxo editorial.